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Martelo Alagoano

Alceu Valença

Homenagem: Martelo Alagoano
1980
Coração Bobo
4:23

Música que homenageia a tradição da cantoria nordestina e os grandes cantadores, celebrando o estilo Martelo Alagoano e suas raízes culturais

Sobre o Estilo: Martelo Alagoano

Métrica: decassílabos (10 sílabas)

Versos por estrofe: 10

Esquema de rima: ABBAACCDDC

Homenagem ao estilo de repente nordestino

Letra e Comentários

Estrofe 1

Cantador, o teu canto de improviso

É o mais nobre poder da criação

O teu verso tem a força de Sansão

É fatal, é perfeito e é preciso

 

Cantador do inconsciente coletivo

Canta a força do povo e o desengano

E a esperança que brota todo ano

Vai tecendo nos versos e nas loas

Batucando a toada de Alagoas

Nos dez pés de martelo alagoano

💭 Comentário: Alceu Valença abre a música com uma reverência profunda ao cantador de repente, reconhecendo o improviso como 'o mais nobre poder da criação'. Ele equipara o verso do cantador à força mítica de Sansão, destacando sua precisão e poder. A referência ao 'inconsciente coletivo' eleva a cantoria a uma expressão cultural que transcende o individual, expressando as esperanças e desencantos de todo um povo. O refrão 'Nos dez pés de martelo alagoano' celebra a métrica característica deste estilo de repente.

Estrofe 2

Da cidade de Campina e do Monteiro

De Passira Panelas e Ingazeira

São José do Egito Capoeira

É viola, é ganzá e é pandeiro

 

Salve Dimas e Pinto do Monteiro

Lourival trocadilho sobre-humano

Vitorino o teu verso tem bom plano

Oliveira Castanha e Beija-Flor

E Mocinha de Passira é um condor

Nos dez pés de martelo alagoano

💭 Comentário: Nesta estrofe, Alceu faz uma geografia poética do sertão pernambucano e paraibano, citando cidades que são berços da cantoria. Mais importante, ele presta homenagem nominal aos grandes mestres: Dimas Batista, Pinto do Monteiro, Lourival Batista, Cego Aderaldo (Oliveira), Severino Pinto (Castanha), João Alexandre (Beija-Flor) e Mocinha de Passira - única mulher citada, comparada a um condor, simbolizando sua força em um universo predominantemente masculino. Os instrumentos citados (viola, ganzá, pandeiro) completam a atmosfera sonora da cantoria.

Estrofe 3

Cantador cem por cento brasileiro

Tem no sangue a saudade lusitana

O batuque das terras africanas

Caetés teu guerreiro violento

 

Cantador de alegrias e tormentos

Tem os pés calejados dos ciganos

É poeta perfeito e soberano

Soberano é perfeito e é poeta

Tem o arco o batuque e tem a flecha

Nos dez pés de martelo alagoano

💭 Comentário: Na estrofe final, Alceu Valença sintetiza a identidade multicultural do cantador brasileiro, traçando suas raízes portuguesas (saudade lusitana), africanas (batuque) e indígenas (Caetés, povo guerreiro do nordeste). A imagem dos 'pés calejados dos ciganos' evoca a vida itinerante dos cantadores, sempre viajando de feira em feira. O jogo poético 'É poeta perfeito e soberano / Soberano é perfeito e é poeta' demonstra a própria habilidade do compositor em trabalhar com palavras, imitando a técnica dos repentistas. A união de 'arco, batuque e flecha' no verso final une as três matrizes culturais brasileiras em uma síntese poética.

Ouça a música: