Música que homenageia a tradição da cantoria nordestina e os grandes cantadores, celebrando o estilo Martelo Alagoano e suas raízes culturais
Métrica: decassílabos (10 sílabas)
Versos por estrofe: 10
Esquema de rima: ABBAACCDDC
Homenagem ao estilo de repente nordestino
Cantador, o teu canto de improviso
É o mais nobre poder da criação
O teu verso tem a força de Sansão
É fatal, é perfeito e é preciso
Cantador do inconsciente coletivo
Canta a força do povo e o desengano
E a esperança que brota todo ano
Vai tecendo nos versos e nas loas
Batucando a toada de Alagoas
Nos dez pés de martelo alagoano
💭 Comentário: Alceu Valença abre a música com uma reverência profunda ao cantador de repente, reconhecendo o improviso como 'o mais nobre poder da criação'. Ele equipara o verso do cantador à força mítica de Sansão, destacando sua precisão e poder. A referência ao 'inconsciente coletivo' eleva a cantoria a uma expressão cultural que transcende o individual, expressando as esperanças e desencantos de todo um povo. O refrão 'Nos dez pés de martelo alagoano' celebra a métrica característica deste estilo de repente.
Da cidade de Campina e do Monteiro
De Passira Panelas e Ingazeira
São José do Egito Capoeira
É viola, é ganzá e é pandeiro
Salve Dimas e Pinto do Monteiro
Lourival trocadilho sobre-humano
Vitorino o teu verso tem bom plano
Oliveira Castanha e Beija-Flor
E Mocinha de Passira é um condor
Nos dez pés de martelo alagoano
💭 Comentário: Nesta estrofe, Alceu faz uma geografia poética do sertão pernambucano e paraibano, citando cidades que são berços da cantoria. Mais importante, ele presta homenagem nominal aos grandes mestres: Dimas Batista, Pinto do Monteiro, Lourival Batista, Cego Aderaldo (Oliveira), Severino Pinto (Castanha), João Alexandre (Beija-Flor) e Mocinha de Passira - única mulher citada, comparada a um condor, simbolizando sua força em um universo predominantemente masculino. Os instrumentos citados (viola, ganzá, pandeiro) completam a atmosfera sonora da cantoria.
Cantador cem por cento brasileiro
Tem no sangue a saudade lusitana
O batuque das terras africanas
Caetés teu guerreiro violento
Cantador de alegrias e tormentos
Tem os pés calejados dos ciganos
É poeta perfeito e soberano
Soberano é perfeito e é poeta
Tem o arco o batuque e tem a flecha
Nos dez pés de martelo alagoano
💭 Comentário: Na estrofe final, Alceu Valença sintetiza a identidade multicultural do cantador brasileiro, traçando suas raízes portuguesas (saudade lusitana), africanas (batuque) e indígenas (Caetés, povo guerreiro do nordeste). A imagem dos 'pés calejados dos ciganos' evoca a vida itinerante dos cantadores, sempre viajando de feira em feira. O jogo poético 'É poeta perfeito e soberano / Soberano é perfeito e é poeta' demonstra a própria habilidade do compositor em trabalhar com palavras, imitando a técnica dos repentistas. A união de 'arco, batuque e flecha' no verso final une as três matrizes culturais brasileiras em uma síntese poética.